A tal brasilidade, em todos os sentidos

Comportamento

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 Já faz um tempo que o Brasil está em alta. Cada vez mais, o mundo volta as antenas com entusiasmo para o que acontece por aqui. Da gastronomia à moda, passando por arte e história, seis especialistas super bacanas contam, especialmente para o Vista, o porquê desse sucesso.

Gastronomia
“Para mim, divulgar a cultura brasileira por meio da gastronomia é uma espécie de missão. A culinária do nosso país era discriminada até bem pouco tempo, reservada às casas das pessoas. Era praticamente impossível encontrar pratos feitos com ingredientes brasileiros ou regionais em restaurantes de primeira categoria.
Apesar de estarmos no Brasil, era mais fácil degustar especialidades das cozinhas francesa, italiana, síria e japonesa do que as coisas da nossa terra. E olha que vivemos em um país que tem tudo o que é necessário para soltar a criatividade, abusar dos sabores… Rios e mares cheios de peixes, frutas exóticas do cerrado, grãos, além da herança portuguesa, indígena e africana. Um caldeirão de influências importantíssimas!
Quando decidi que ia abrir um restaurante, passei um ano viajando por diferentes partes do Brasil, conhecendo de perto a cultura, os ingredientes e a culinária de várias regiões, entendendo como tudo isso funcionava junto. Trouxe receitas, produtos e, sobretudo, informações, e em cima dessas influências fiz minha interpretação e comecei a criar um cardápio. Isso foi há oito anos e, até hoje, circulo pelos quatro cantos do país pesquisando, buscando novidades, conhecimento e me inspirando para desenvolver receitas.
É muito interessante sofisticar pratos como carne-seca ou carne de bode que, até bem pouco tempo, eram associadas apenas à culinária popular. Um dos pratos mais elogiados do meu restaurante é o lombo de bode com favas brasileiras e queijo manteiga. Adoro ver como frequentadores da alta gastronomia se rendem a essas iguarias. Meu desafio é acabar com preconceitos.
Ana Luiza Trajano, chef e proprietaria do restaurante Brasil a Gosto, em São Paulo

 

Moda
“A brasileira é bem livre no jeito de ser e se vestir, e isso tem tudo a ver com a moda que faço. A mulher daqui é solta, gosta de mostrar o corpo. Tem uma sensualidade natural e é criativa. É, acima de tudo, feminina. Quer se enfeitar, mostrar as curvas, independente do tipo de corpo ou estilo.
Quando estou criando as roupas da minha marca,  penso em deixá-la bonita, charmosa, colorida. É a primeira coisa que me vem à cabeça. E isso vale para brasileiras de todas as partes do país. Quando viajo para a Europa, reparo que a maior parte das mulheres é mais ‘cool’, até um pouco minimalista. Já aqui é totalmente diferente.
A brasileira é mais exuberante. E, se não fosse assim, eu teria a maior dificuldade de fazer moda, porque o que sei fazer são roupas elaboradas, com estampas, bordados e detalhes. Quando mostro minhas criações fora do Brasil, logo associam a uma brasilidade contemporânea, justamente por causa dessa essência. Fico superfeliz, porque me considero bem brasileira, adoro meu país e essa influência.
Gosto de poder misturar estampas e cores, brincar com isso. Quando vou ao Norte e ao Nordeste fico encantada ao ver como as pessoas conseguem fazer esse mix e montar visuais lindos. É um talento do nosso povo, talvez uma herança vinda da África, onde as tribos usam estampas e cores sem medo. E sempre dá certo! Está no sangue mesmo.
Isabela Capeto, estilista carioca que já desenvolveu coleções especiais para a C&A

 

Arte
“Não é fácil definir em poucas palavras a brasilidade nas artes plásticas. A arte contemporânea brasileira é muito diversificada. Tem um pouco de tudo. Porém, se tivesse que destacar um traço mais forte, seria a interatividade. Historicamente tivemos alguns artistas muito importantes, que lançaram novas ideias e conceitos. Os neoconcretistas Helio Oiticica e Lygia Clark são os mais conhecidos dessa tendência que colocou a interação do espectador e a participação ativa do público como algo fundamental.
Foi uma ruptura na arte contemporânea que se deu no Brasil antes que no resto do mundo. Por isso acabou se firmando como uma das grandes características da arte brasileira, reconhecida internacionalmente. Como já disse, é difícil citar apenas uma característica que resuma o movimento artístico no Brasil, mas essa talvez seja uma das mais notáveis.
Quando começou, na década de 60, era uma coisa quase terapêutica, uma catarse, com o público vestindo as obras, no caso dos parangolés de Oiticica – capas, tendas, bandeiras, estandartes coloridos de algodão e nylon, com poemas pintados, que eram usados sobre o corpo, ou manuseando as criações de Lygia Clark, em um ato que beirava a performance. De lá para cá, muitos artistas seguiram trabalhando nessa linha, como Ernesto Neto, Jarbas Lopes, Laura Lima, entre outros. A obra só é finalizada quando o público interage com ela, encerrando assim o processo criativo.”
Jacopo Crivelli Visconti, curador de arte Independente, já foi curador da Bienal de Artes de São Paulo

 

Gente
“Há 20 anos assistimos ao crescimento de famílias chefiadas por mulheres, que acumulam a educação dos filhos com a profissão. Produto das mudanças nos costumes, da executiva à empregada doméstica, as brasileiras não se conformam mais com os sofrimentos de um casamento infeliz, por exemplo. Preferem seguir em frente, no esforço de encontrar a própria realização.
Filhos criados longe do pai estão destinados a ter um desempenho preocupante? Não. Pesquisas mostram que os filhos de mães sozinhas de classe média se saem melhor até do que crianças que têm a presença paterna em casa. Essas mães cobram mais responsabilidade de seus filhos. E o casamento? Recentemente, uma pesquisa perguntou a casais da classe média: ‘O que é casamento’. A resposta de 95% das mulheres foi ‘uma relação de amor’. A de 100% dos homens, ‘a constituição de uma família’. São visões diferentes e frustrações idem.
Outra mudança notável veio com o fim do preconceito contra a trabalhadora. Ela não é mais julgada por ter que deixar a casa para ter uma profissão. Ao contrário, tornou-se quase uma exigência que a brasileira tivesse um lugar ao sol no mercado de trabalho. Com a segurança dos salários e o controle de natalidade, mais e mais mulheres querem conjugar o verbo ‘recomeçar’.
Muitas transformações sociais agiram para modificar a vida da brasileira. Álbuns de retratos ganharam novos personagens: padrastos, meios-irmãos e produções independentes. As avós têm o papel de criar e educar os netos, repartindo com pais biológicos responsabilidades, inclusive, financeiras. A sexualidade feminina liberou-se das exigências de reprodução. Enfim, ser mulher brasileira, hoje, é sinônimo de mudanças.”
Mary Del Priore, historiadora e autora de “Histórias íntimas – secxualidade e erotismo na história do Brasil” ( editora Planeta)


Música

“O Brasil é a terra de todos os ritmos. Começando pelos tambores, passando pelos sambas e desaguando no nosso maior orgulho, a bossa nova. Lá da Bahia vem a alegria do axé, do Recife, os maracatus incendiários, de Belém, os carimbós malemolentes, de Fortaleza, o arretado forró e do Rio de Janeiro, as letras maliciosas do funk. O Brasil é essencialmente um país de cantoras. Aqui nesta terra nasceram mulheres importantes, como Dalva de Oliveira e Elis Regina, que deixaram forte herança para outras não menos marcantes, como Marisa Monte e Cássia Eller.
Intérpretes dramáticas que falaram de amor como ninguém, como Maysa, e sambistas de personalidade, como Alcione e Clara Nunes, confirmam essa pluralidade. A principal característica da música brasileira é o cuidado com a letra. Somos donos de uma língua privilegiada e sofisticada, e nossos compositores sabem disso e transformam melodias em verdadeiras obras de arte. É o caso de Chico Buarque e Caetano Veloso, dois gênios que fazem poesia das mais variadas inspirações. E o mundo inteiro quer copiar.
A música brasileira é uma joia cada vez mais valorizada no mercado externo. Novas cantoras como Céu e Luisa Maita encontraram abrigo certo no exterior com discos lançados por lá e muita repercussão. Sem esquecermos, é claro, de duas que se instalaram definitivamente no coração dos estrangeiros: Carmen Miranda e Bebel Gilberto, musas de épocas distintas que escolheram outras terras como residência fixa, sendo sempre a nossa mais completa tradução musical lá fora.”
Zé Pedro, DJ e mentor do selo Joia Moderna, que tem em seu time apenas cantoras, como Lenny Andrade e Cida Moreira

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